Texto na introdução do livro

CRISE E PROSPERIDADE COMERCIAL, FINANCEIRA E POLÍTICA

O objetivo inicial deste livro é apresentar o índice iHdB que compara a atratividade de países para investimentos externos e, por conseqüência, expressa a movimentação de fluxos de capitais internacionais, o que pode trazer prosperidade ou gerar crises financeiras. O índice iHdB é obtido por meio de uma demonstração matemática simples com auxílio de um gráfico espaço-tempo, sobre o qual são aplicados fundamentos financeiros. Com dados publicados ao longo de vários anos e para vários países, são apresentados valores para o índice iHdB, que podem complementar uma análise fundamental sobre a economia de regiões e países. Desta forma, o índice iHdB teve uma formulação conceitual e, posteriormente, dados vieram confirmar a sua validade. Há uma versão do índice iHdB com taxas de juros; uma versão com variação percentual de preços; e uma versão para aplicação no mercado acionário. O modelo do índice iHdB fornece novos argumentos para explicar a limitação da Lei do preço único e do Efeito Fisher, além de indicar o porquê de barreiras ao livre comércio internacional, impostas por países considerados desenvolvidos, poderem dificultar o esforço para honrar a dívida externa e outras obrigações internacionais, pagas com divisas, pelos países tidos como em desenvolvimento. O livre fluxo de capitais internacionais requer o livre comércio exterior em todas as áreas.

A oscilação, ao longo do tempo, do índice iHdB de cada país em torno de zero sinaliza que a constante disputa entre países pela prosperidade com equilíbrio foi, é, e sempre será permanente. Momentos de prosperidade são intercalados com momentos de retração, como, aliás, ocorre na vida pessoal de cada um. Países dependentes de capital externo e com um volume de reservas em moeda estrangeira não tão abundante como outros países precisam evitar bruscas desvalorizações cambiais, as quais comprometeriam o controle do seu balanço de pagamentos. A melhor forma de um país reduzir sua dependência externa é através de superávit no balanço comercial, o que é difícil pela intensa competição e barreiras ao livre comércio. Governantes também devem demonstrar responsabilidade fiscal; sinalizar respeito a contratos; manter a economia estável; proporcionar regras transparentes, equilibradas, exeqüíveis e estáveis para empreendedores, além de constantemente se preocupar com a coesão social da sua população.

Mesmo fazendo "tudo certo" é possível não ser bem sucedido, porque o processo dinâmico da interação do sistema financeiro com o sistema produtivo nem sempre conduz a um equilíbrio estável, e porque há circunstâncias no ambiente geopolítico internacional que estão fora do controle dos dirigentes de uma nação, tal como o sucesso empresarial depende tanto da capacidade do empresário como de fatores incontroláveis no ambiente empresarial. Neste livro, é igualmente empregada uma análise interdisciplinar que recorre a fluxos e processos com o fito de mostrar como o sistema financeiro interage com o sistema produtivo. Proponho um modelo que mostra a interação de transações e saques nos bancos, considerando o impacto do governo. A nova Equação Emissão-Inflação (Equação 4.3-21) possibilita identificar as circunstâncias para deflação, inflação ou estagflação (inflação com recessão). Essa equação evidencia a importância do dinheiro como um instrumento de comércio e de exercício do poder e não algo a ser simplesmente acumulado e estocado. O dinheiro facilita que sejam estabelecidas transações em grande quantidade, variedade e complexidade, o que contribui para a prosperidade de uma região e a ocupação de sua população.

Este livro é composto de cinco capítulos, que são subdivididos em seções que, por sua vez, podem conter vários tópicos. No primeiro capítulo é deduzida a Equação do iHdB (Figura 1.5-1), é exposto o Método do iHdB para Fluxo de Caixa e são introduzidas as versões da Equação do iHdB. Ademais, o Modelo Interesse-Expectativa (Figura 1.1-2) no capítulo 1 mostra a formação das expectativas e os desdobramentos. O capítulo 2 apresenta um resumo do que foi deduzido no capítulo 1 (Quadro 2.0-1 e Quadro 2.0-2) e mostra aplicações com dados numéricos. Com os resultados numéricos do capítulo 2, são comentadas no capítulo 3 as conseqüências da Equação do iHdB sobre a atratividade de países e regiões para investimentos; sobre a chamada Lei do preço único; sobre a Paridade do poder de compra; sobre o Efeito Fisher; sobre o comércio exterior; e sobre incertezas financeiras em países com obrigações internacionais a honrar. No capítulo 4 é exposto como interage o setor financeiro com o setor produtivo, inclusive porque o iHdB obtido com dados financeiros está geralmente correlacionado, de forma positiva, ao iHdB obtido com variações de preços. A Equação Emissão-Inflação é deduzida a partir da Figura 4.3-1 e é ressaltada a importância de transações para o bem-estar da sociedade. São indicadas causas e conseqüências dos inevitáveis conflitos de interesse relacionados à sobrevivência humana e à conquista de poder, que estão refletidas nas transações envolvendo dinheiro. No final do capítulo 4 é discutido o impacto de pagamentos internacionais sobre as atividades empresariais em um país e é comentada a função do fornecedor de empréstimos de último recurso e sua eficácia. Considerando as informações dos capítulos anteriores, são discutidos, no capítulo 5, aspectos relacionados aos fluxos de capitais internacionais (incluindo possibilidades de controle); é avaliada a convivência de diversas moedas; são analisados desafios nas relações internacionais; e na conclusão é proposta uma reflexão sobre a residência do capital internacional. Complementando a discussão sobre concentração de renda no capítulo 5, no anexo O, proponho o índice iC e uma metodologia para quantificar a concentração de renda num país e num bloco de países, como a Área do euro e a ALCA.

Na contracapa deste livro há perguntas instigantes com o propósito de estimular o interesse do leitor por este livro. Para aqueles que desejam saber onde estariam as "respostas", indico que não há respostas únicas e perfeitas e que este livro não ambiciona impor opiniões. Desta forma, o quadro a seguir indica onde o assunto das perguntas é discutido.

Por que períodos de crise ou prosperidade não duram eternamente?

seção 3.1

O que se pode controlar: a inflação ou a taxa de câmbio?

seções 1.4, 2.1, 3.3 e 5.2 e tópico 4.1.3

Que informação o índice Big Mac da revista The Economist pode revelar?

seções 2.3 a 2.5, 3.2, 3.4 e 3.5

Por que um livre fluxo financeiro requer um comércio internacional livre?

seções 3.6, 4.6, 5.1 e 5.4 e tópico 4.1.2

De que forma interage o sistema financeiro com o sistema produtivo?

seção 4.3 (observando seções 4.1 e 4.2)

Como dívidas externas concentram renda e impactam relações entre países?

seções 3.7, 4.6, 4.7 e 5.4

Quais são os desafios de blocos comerciais, monetários ou políticos?

seções 3.4, 5.3 e 5.4

Por que muda o salário mínimo conforme a região e existe desemprego?

seção 3.5 e tópico 4.1.1

Relações de troca nos mercados combatem a fome e a miséria?

seção 4.5

Como as emoções humanas afetam transações comerciais e financeiras?

seções 1.1, 4.4 e 4.5

Dinheiro contribui para a felicidade?

seções 4.5 e 5.5

Capital internacional tem pátria?

seções 1.5 e 5.5

A ênfase deste livro é introduzir novos conceitos aplicáveis na vida cotidiana e apresentar, de forma sistêmica, aqueles conhecimentos dispersos em várias publicações que explicam os acontecimentos do dia-a-dia. De forma a fundamentar e a ilustrar conceitos e argumentos, este livro está "recheado" de exemplos do cotidiano e de citações (eventualmente com minha tradução ao lado). Procurei ao máximo inserir figuras e quadros porque acredito na capacidade das imagens transmitirem informações e na necessidade de desafogar um texto. Não é pressuposto que o leitor tenha bons conhecimentos em finanças e domine matemática financeira, estatística ou cálculo avançado de forma a entender o conteúdo deste livro. São explicados termos e expressões específicas que não fazem parte da linguagem coloquial. Para associar informações neste livro e permitir uma leitura que não siga a seqüência proposta, muitas notas de rodapé indicam onde há idéias correlatas ou complementares, além de detalhar alguns roteiros de cálculos e referências. Anexos mostram tabelas com todos os dados usados nos cálculos citados no livro ou fornecem algumas informações teóricas adicionais.

Houve uma preocupação tanto em inserir informações dentro de um contexto, quanto em evitar repetições de idéias. A repetição pode ser útil para reforçar uma mensagem e é inevitável quando distintas linhas de raciocínio e diferenças na argumentação levam a uma mesma mensagem. Agradeço comentários daqueles que julgarem haver omissões, imprecisões e equívocos. Por mais que se esforce, ninguém está livre de cometer equívocos. Parece-me, entretanto, que a polêmica em torno de eventuais opiniões, omissões e imprecisões pode ser útil ao contribuir para continuar o importante debate sobre os temas aqui abordados, os quais, no meu entendimento, são essenciais para o bem-estar de uma sociedade. É possível que o leitor fique com dúvidas sobre a minha opinião a respeito de vários conflitos de idéias e de interesses que exponho ao longo do livro. Todavia, não escrevi este livro com a preocupação em avaliar aspectos específicos de um país ou apreciar a atuação de determinado governo, mas, sim, com a intenção de apresentar fundamentos financeiros, comerciais e políticos com validade internacional. Neste contexto, espero que a estrutura do livro e o encadeamento das informações agradem ao leitor, pois concordo inteiramente com o narrador Bento Santiago, o "Dom Casmurro", na obra homônima (capítulo LIX) do brasileiro Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908):

Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas!

O acúmulo de vivências profundas em diversas situações e a absorção de conhecimento de várias áreas me impulsionaram a redigir este livro. Num tempo quando a palavra "globalização" não existia, meus pais julgaram necessário que eu aprendesse inglês no início da minha infância, e que eu freqüentasse, por cinco anos, o ensino básico de uma escola internacional - The British School no Rio de Janeiro. Vivenciei uma importante mudança cultural aos dez anos de idade, quando fui para uma escola brasileira não convencional - Colégio de Aplicação - UFRJ. Treze anos mais tarde, em 1986, já graduado em engenharia e muito entrosado na minha cidade, fui trabalhar e fazer um doutorado na École Polytechnique Fédérale de Lausanne - EPFL - na Suíça, onde, ao longo dos cinco anos e meio, morei tanto na parte germânica como na parte francófona, com oportunidade de viajar pela Europa, ainda dividida em virtude da chamada "Guerra Fria" e com várias moedas em circulação. Após minha volta ao Brasil em 1992, tive vários desafios pessoais e profissionais. Morei cinco anos em São Paulo e o destino, pelas mãos de minha esposa gaúcha, quis que eu voltasse ao Rio de Janeiro, inclusive para reencontrar minha família e amigos de infância. Trabalhei tanto para multinacionais como para pequenas firmas nacionais. Vi, ouvi e li muitos casos sobre crise e prosperidade de pessoas, povos, regiões, empresas e países. Senti que precisava colocar uma massa de informação dentro de um contexto, com a expectativa de contribuir para uma compreensão interdisciplinar sobre esse assunto.

Um grande interesse e um incisivo empenho do autor em escrever um livro não devem ser argumentos que motivam leitores a dedicarem tempo à leitura de sua obra. O conteúdo do livro tem que interessar ao leitor e, se possível, ser uma contribuição original. Por isso, demorei a publicar este livro. Embora eu tenha começado a dar forma a este trabalho em março de 1999, ao estudar o processo de desvalorização da moeda brasileira em relação ao dólar norte-americano e ao procurar avaliar as conseqüências da introdução da moeda única européia, ambos no início daquele ano, foi no primeiro semestre de 2002 que tive a oportunidade de usar dados publicados para fazer os cálculos do índice iHdB, expostos no capítulo 2, os quais deram sustentação a uma série de idéias no texto.

Não solicitei e, portanto, não recebi nenhum financiamento de pessoas ou instituições para a realização deste livro. Sequer discuti com alguém a concepção, a redação e as opiniões expressas neste texto. Isto me permitiu preservar minha independência em relação ao conteúdo e ao prazo de conclusão. No entanto, mesmo trabalhando de forma independente e sigilosa, não posso deixar de reconhecer que minha interação com certas instituições foi importante para a inspiração deste trabalho. Ressalto o profícuo convívio com empresários e personalidades e a participação em inúmeras, interessantes e variadas palestras na Associação Comercial do Rio de Janeiro desde 1998, no Rotary Club Rio de Janeiro desde 1997 e no Rotary Club São Paulo entre 1995 e 1997. Nestes ambientes presenciei uma intensa troca de idéias com respeito pela pluralidade de opiniões e preocupação constante em estudar e propor soluções para problemas do Brasil e sua inserção no mundo global, pensando em soluções negociadas que fossem benéficas a todos os interessados, o que contribui para a paz no mundo. Fui estimulado a refletir sobre novas idéias, sempre com enfoque empresarial e social. Também apreciei vários eventos promovidos pela Comissão de Direito Ambiental da OAB-RJ, pelo Instituto de Engenharia São Paulo e pelo Clube de Engenharia no Rio de Janeiro. Além disso, indico que o acesso público ao acervo das bibliotecas do Coppead-UFRJ e do IPEA no Rio de Janeiro viabilizou um aprofundamento da pesquisa. Sou grato ao atendimento solícito dos funcionários destas bibliotecas. Devo também agradecer a várias pessoas a indicação de ótimas publicações e a outras pelo convite a eventos muito profícuos. O receio de omitir alguém impede a elaboração de uma relação de nomes.

Este trabalho expõe modelos e opiniões que foram elaboradas a partir de um conjunto de dados, da leitura de uma série de livros e revistas e da participação em vários eventos, sem deixar de reconhecer a importância da formação transmitida pela minha família, a instrução adquirida em universidades e escolas e a vivência profissional. É sempre preciso, entretanto, humildade ao propor um modelo original e argumentos novos, porque a história demonstra que algo que parece correto e com validade geral no presente pode se revelar um equívoco no futuro ou apenas um caso particular. Mesmo se o modelo, os argumentos e os dados expostos neste trabalho parecem ser consistentes e coerentes entre si, isto não exime a importância de que outros trabalhos verifiquem a validade da Equação do índice iHdB nas diferentes versões e da Equação Emissão-Inflação e a pertinência das idéias expressas no livro, inclusive considerando a feliz observação atribuída ao alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): "A maior inimiga da verdade não é a mentira. É a convicção". Indico ainda que o objetivo deste trabalho é avançar na compreensão sobre o funcionamento de mercados financeiros e sua interação com o setor produtivo sem qualquer intenção de propor procedimentos para auferir ganhos financeiros ou para causar danos a terceiros. Dessa forma, ressalto que não me responsabilizo por eventuais ganhos ou perdas de qualquer natureza em decorrência do uso parcial ou total das informações apresentadas neste trabalho.

Em 14 de fevereiro de 2003, registrei uma primeira versão deste texto no Escritório de Direitos Autorais. Antes de publicar este livro, revi e ampliei o conteúdo da versão não-publicada, além de incluir no modelo do iHdB os novos dados da revista The Economist publicados em abril de 2003. Pude contar com a prestativa colaboração da Dra. Marlene Almeida Manso da Costa Reis na revisão da linguagem empregada. Assim, acredito que o texto publicado deste livro esteja mais claro, completo e com reflexões amadurecidas. Todavia, podem ainda persistir alguns equívocos na redação e na edição deste livro, pois ao longo do período de revisão acrescentei conteúdo, que não foi revisto pela Marlene, grande amiga da minha família. Desta forma, somente eu sou responsável pelas idéias e pela forma que são apresentadas neste livro e agradeço o carinhoso apoio da Marlene, lembrando que não é a primeira vez que Marlene me deu um apoio tão importante. Já em 1980, ela e seu filho Danilo me ajudaram muito. Sou também muito grato pelo apoio recebido do meu irmão, Luís Henriques de Brito, pela assessoria em informática. Obrigado Luís!

Espero que o tempo que o leitor dedicar à leitura deste texto, seja um investimento que lhe proporcionará um retorno para suas atividades profissionais, assim como tenha alguma aplicação na sua vida social e pessoal. Agradeço a atenção.

Rio de Janeiro, novembro de 2003

Marcelo Henriques de Brito

probatus@probatus.com.br

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