País pode reviver Alemanha dos anos 20
O elevado endividamento externo de Brasil, Rússia e
Turquia, por exemplo, os expõe ao risco permanente de crises cambiais
O livro Crise e prosperidade comercial, financeira e
política, do administrador e engenheiro Marcelo Henriques de Brito,
apresenta o novo indice iHdB que compara a atratividade de países para
investimentos internacionais. Henriques de Brito propõe, ainda, um modelo
que mostra como o setor financeiro interage com o setor produtivo e a
equação Emissão-Inflação, que, segundo o autor, possibilita identificar as
circunstâncias para deflação, inflação ou estagflação. O instrumental
criado por Henriques de Brito tem, entre outros objetivos, determinar
quando uma moeda está artificialmente desvalorizada - como pode estar
ocorrendo com a moeda da China. Nesta entrevista, ele critica a abertura
financeira, por parte de países como o Brasil, sem a contrapartida da
abertura comercial no mundo desenvolvido. E reconhece que o elevado
endividamento externo de Brasil, Rússia e Turquia, por exemplo, os expõe
ao risco permanente de crises cambiais, fazendo com que a oferta de juros
elevados e isenção fiscal podem não ser suficientes para atrair
investimentos externos na quantidade desejável, uma situação perigosa,
possivelmente "semelhante à da Alemanha na década de 20".
Por que escreveu este livro e a quem ele vai interessar?
O público-alvo deste livro são pessoas interessadas em
estabelecer vínculos entre finanças, atividades empresariais e política.
Não foi escrito com o propósito de julgar pessoas, empresas ou países, mas
mostrar fundamentos financeiros e empresariais, resultantes de estudo, de
forma a contribuir para que haja bem estar generalizado nas relações entre
países e internas de cada país. Certamente, finanças é um ponto que afeta
essas relações. Distúrbios financeiros geram dificuldades políticas e nas
relações entre os povos. Se queremos ter paz no mundo, precisamos ter
relações financeiras e comerciais saudáveis, tanto domesticamente, como
entre países.
Quais os principais fatores determinantes da atratividade
de um país para investimentos externos?
A razão entre taxa de juros no exterior e no país do
investidor, razão entre tributos e variação cambial.
Por que não há uma explosão de investimentos no Brasil,
se oferecemos juros altos, isenção de tributos e a variação cambial tem
sido bem menor que antes do Plano Real?
Devido à ameaça de desvalorização cambial. Se há
desvalorização, isso tem que ser compensado por um aumento na razão entre
taxas de juros. A taxa de juros no Brasil tem sido superior à taxa nos
EUA, para compensar a ameaça de uma desvalorização cambial. Essa ameaça de
desvalorização motiva uma taxa de juros superior à taxa nos EUA.
Mas por que nossa taxa de juros é bem superior também à
média dos emergentes?
Rússia, Turquia e Brasil costumam apresentar esse tipo de
característica. O iHdB tem valor bem superior a zero nesses países. Esses
países têm essa peculiaridade por causa de desvalorização cambial. Uso no
livro uma analogia de uma instalação industrial para mostrar que, para
pagar dívidas no exterior, remessa de lucros, royaltes, um país precisa
captar divisas. E o exportador recebe um correspondente ao valor exportado
em moeda nacional. Se houver enxurrada na economia, a inflação será
pressionada. O governo, então, precisa retirar essa liquidez, e o faz com
tributação, programas de privativação ou venda de títulos públicos com
altas taxas de juros. Aconteceu na Alemanha, na década de 20.
O Brasil estaria correndo esse risco?
O problema da dívida externa da Alemanha aconteceu após o
Tratado de Versalhes, ao fim da Primeira Guerra Mundial. O meu livro não é
bola de cristal, seria perigoso e até desonesto fazer alguma previsão. Mas
é importante lembrar que os problemas que ocorreram no passado podem se
repetir. A democracia é um patrimônio importantíssimo não só no ponto de
vista de bem estar, como em relação às possibilidades de transações.
Quanto mais opções de compra oferece, mais diversificada é uma economia.
Como o BC monitora a variação cambial a partir das taxas
de juros dos EUA e do Brasil?
Se a razão entre a taxa de juros no Brasil e nos EUA for
favorável a investimentos no Brasil, seja para capital produtivo ou
especulativo, ou seja, se entrar muito capital, isso pode valorizar o real
em relação ao dólar. Caso contrário, desvaloriza o real. A razão entre as
taxas de juros dos países pode monitorar uma entrada de capital que
compense a remessa de divisas para o exterior e com isso manter a variação
cambial sob controle. (ver gráfico)
É favorável a algum controle ao capital especulativo?
O desafio não é conter o fluxo de capitais, mas sim
atraí-los e retê-los. Desafio ainda maior é impedir restrições ao comércio
internacional em todos os níveis - produtos agrícolas, industrializados. É
inconcebível haver livre fluxo de capitais sem livre comércio
internacional. Se o capital entra e não fica ou fica pouco tempo é um
problema. Capital não é apenas dinheiro, mas tecnologia, formas de gestão,
atividades empresariais que gerem outros negócios numa teia de atividades
empresariais. Capital estrangeiro deve ser bem-vindo quando gera negócios
numa teia de atividades empresariais ou ajuda a realização de novos
negócios.
O livro afirma que "realizar negócios é negar o ócio".
Muito se discute atualmente o papel do Estado na economia. Caberia a ele o
papel de fomentar negócios?
É verdade que o ócio é péssimo. Não basta alimentar a
população. Trocar é interagir com outras pessoas. Essencial para o
bem-estar humano e social. Se as transações não são realizadas na economia
formal, há ameaça da informalidade e ilegalidade.
No livro, destaco que nenhum governo consegue acabar com
micro e pequenas empresas, porém é responsável direto pela informalidade e
ilegalidade quando dificulta o funcionamento delas na economia formal. A
principal função do governo é não prejudicar a economia formal. E ele pode
prejudicar com elevadas taxas de juros e uma série de procedimentos
burocráticos, ônus tributários, trabalhistas, previdenciários.
O livro destaca que a abertura financeira exige como
reciprocidade a abertura comercial. Por que?
Essa afirmação decorre de três pontos: barreiras
protecionistas, deterioração dos termos de troca e aumento da diferença de
preços entre países. No livro, mostro como o Big Mac nos EUA está ficando
cada vez mais caro alguns emergentes. Isso é uma barreira ao comércio
exterior porque fica mais caro importar e recebe-se menos ao exportar. Se
há dificuldades no comércio exterior, como um país terá facilidade de
captar divisas para honrar compromissos internacionais? Então é
extremamente importante a liberdade no comércio exterior.
A vulnerabilidade externa da economia brasileira está
levando o governo a adiar uma política de recuperação dos negócios no
mercado interno?
A política econômica é voltada para atração de
investimentos, para o balanço de pagamentos. E a variação cambial mensal
está sendo monitorada em relação à variação dos juros nos EUA e no Brasil.
De forma que a variação cambial mensal flutue dentro de uma banda próxima
de zero e não repita o que acontecia antes do Real, quando havia tendência
cada vez maior de desvalorização da moeda brasileira em relação ao dólar.
No livro, é dito que a moeda chinesa esconde a força do
país - câmbio artificialmente desvalorizado, favorável às exportações. O
Brasil não poderia seguir o exemplo, já que o senhor também afirma que "a
melhor forma de um país reduzir a dependência externa é através do balanço
comercial"?
A China pode fazer isso porque tem liberdade para tal.
Suas obrigações internacionais são muito baixas. Os compromissos são
facilmente honrados, garantindo ao país uma posição confortável. Manter
câbio fixo desvalorizado é o oposto do que fez a Argentina
(artificialmente valorizado). Era favorável para a Argentina importar
produtos dos países industrializados. A da China é favorável a uma
substituição de importações, estimulando as empresas a irem produzir na
China, tanto que fábricas do México, EUA estão se deslocando para lá.